Durante muito tempo, falar sobre inteligência artificial na advocacia parecia um debate voltado para o futuro. Hoje, porém, essa realidade mudou. A IA passou a fazer parte da rotina de milhares de profissionais do Direito.
No entanto, a verdadeira transformação não está apenas na adoção da tecnologia. O mercado jurídico começa a exigir algo muito mais relevante: a capacidade de utilizar a IA de forma estratégica, segura e capaz de gerar resultados para clientes e escritórios.
Esse movimento ficou ainda mais evidente após a divulgação do estudo Future of Professionals 2026, da Thomson Reuters. O relatório mostra que organizações que demoram para estruturar o uso da inteligência artificial correm riscos que vão muito além da produtividade. Entre eles estão a perda de competitividade, a dificuldade para reter talentos, o aumento da exposição a riscos de segurança e até a possibilidade de perder contratos importantes.
Em outras palavras, a discussão deixou de ser “usar ou não usar IA”. O verdadeiro desafio agora é transformar essa tecnologia em vantagem competitiva.
Essa mudança acontece porque os clientes também mudaram suas expectativas. Empresas contratantes esperam serviços mais rápidos, análises mais completas, respostas mais precisas e maior eficiência operacional. Consequentemente, escritórios que ainda executam processos inteiramente manuais tendem a enfrentar dificuldades para acompanhar esse novo nível de exigência.
Além disso, a evolução da inteligência artificial vem acontecendo em um ritmo acelerado. Ferramentas que antes apenas auxiliavam na produção de textos hoje conseguem analisar grandes volumes de documentos, resumir processos, localizar jurisprudências relevantes, identificar padrões e apoiar diversas etapas da rotina jurídica.
Entretanto, isso não significa que a tecnologia substitua o advogado. Pelo contrário. Quanto mais sofisticadas se tornam as soluções de IA, maior passa a ser a importância da supervisão humana, da capacidade analítica e da tomada de decisão estratégica por profissionais qualificados.
Nesse contexto, a IA no escritório de advocacia deixa de representar apenas uma inovação para se tornar essencial na estratégia de crescimento dos escritórios.
O atraso na adoção da IA pode gerar impactos financeiros
Os números apresentados pela Thomson Reuters chamam a atenção porque mostram que a inteligência artificial já influencia diretamente a relação entre escritórios e clientes.
Segundo o levantamento, realizado com profissionais de 62 países, cerca de 74% dos entrevistados afirmam utilizar ferramentas de IA semanalmente. Apesar disso, 91% acreditam que suas organizações ainda aproveitam menos do que poderiam todo o potencial da tecnologia.
Esse dado revela um cenário curioso. Embora a maior parte dos profissionais já utilize IA em alguma etapa do trabalho, poucas organizações conseguiram transformar esse uso em ganhos consistentes de eficiência, qualidade e valor percebido pelos clientes.
O reflexo aparece justamente na contratação de serviços jurídicos.
As expectativas dos clientes estão mudando
Cada vez mais, departamentos jurídicos e escritórios esperam que seus parceiros utilizem tecnologia para entregar resultados melhores em menos tempo. Afinal, processos repetitivos podem ser automatizados, pesquisas podem ser aceleradas e documentos podem ser produzidos com muito mais eficiência quando a IA é utilizada de maneira adequada.
Não por acaso, o estudo mostra que a maioria dos clientes considera essencial que seus fornecedores demonstrem ganhos concretos proporcionados pela inteligência artificial. Entretanto, apenas uma pequena parcela acredita que isso já acontece de forma consistente.
Essa diferença entre expectativa e realidade cria um ambiente de pressão competitiva.
Na prática, escritórios que conseguem integrar tecnologia aos seus fluxos internos passam a oferecer maior agilidade, melhor capacidade analítica e mais previsibilidade nas entregas. Enquanto isso, organizações que permanecem dependentes de processos manuais tendem a enfrentar dificuldades para acompanhar a velocidade exigida pelo mercado.
Além da eficiência operacional, existe também uma questão econômica importante.
O relatório estima que aproximadamente US$ 143 bilhões em receitas possam estar sob risco nos mercados jurídico e contábil norte-americanos em razão da substituição de fornecedores que ainda não conseguem demonstrar ganhos reais com o uso da IA.
Naturalmente, esse número está relacionado ao mercado dos Estados Unidos. Contudo, a tendência observada é global. À medida que clientes passam a valorizar produtividade, precisão e inovação, escritórios de diferentes países também precisam adaptar seus modelos de trabalho para permanecer competitivos.
Isso significa que investir em IA no escritório de advocacia deixou de representar apenas um diferencial tecnológico. Em muitos casos, tornou-se uma decisão estratégica para preservar clientes, fortalecer a reputação da banca e sustentar o crescimento do negócio ao longo dos próximos anos.
A tecnologia, sozinha, não resolve o problema
Apesar do entusiasmo em torno da inteligência artificial, existe um ponto que merece atenção.
Adotar uma ferramenta de IA não garante, por si só, melhores resultados.
Na prática, muitos escritórios começam utilizando soluções genéricas para atividades pontuais, mas sem estabelecer critérios claros de uso, revisão ou governança. Como consequência, o potencial da tecnologia acaba sendo subaproveitado, enquanto novos riscos passam a surgir.
É justamente por isso que especialistas defendem que a transformação digital na advocacia depende de três pilares fundamentais:
- Tecnologia adequada às necessidades do escritório;
- Processos bem definidos;
- Participação ativa dos profissionais responsáveis pela validação das informações.
Em outras palavras, a IA deve atuar como uma ferramenta de apoio à atividade jurídica, nunca como substituta da análise técnica do advogado.
Isso se torna ainda mais relevante quando falamos de documentos processuais, pareceres, contratos e informações confidenciais. Nesses casos, qualquer conteúdo produzido pela IA precisa ser cuidadosamente revisado antes de ser utilizado, garantindo precisão jurídica, conformidade e segurança.
Além disso, escritórios que estabelecem políticas claras para o uso da IA conseguem extrair benefícios muito maiores da tecnologia, reduzindo riscos e aumentando a confiança tanto das equipes quanto dos clientes.
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Shadow AI: risco invisível que pode comprometer a segurança dos escritórios
Se, por um lado, a inteligência artificial amplia a produtividade dos profissionais do Direito, por outro, ela também cria novos desafios para a segurança da informação e a governança corporativa.
Um dos principais deles é o chamado Shadow AI, expressão utilizada para descrever o uso de ferramentas de inteligência artificial que não foram aprovadas ou validadas pela organização. Em muitos casos, advogados e colaboradores recorrem a essas soluções por iniciativa própria para ganhar agilidade em tarefas do dia a dia, sem considerar os riscos envolvidos.
À primeira vista, essa prática pode parecer inofensiva. Entretanto, quando informações processuais, contratos, dados pessoais ou documentos estratégicos são inseridos em plataformas sem critérios de segurança, os riscos aumentam significativamente.
No setor jurídico, essa preocupação é ainda maior. Afinal, escritórios de advocacia lidam diariamente com informações protegidas por sigilo profissional, dados pessoais sensíveis e documentos que podem impactar diretamente clientes, empresas e processos judiciais.
O relatório da Thomson Reuters reforça esse cenário ao mostrar que aproximadamente um terço dos profissionais das áreas jurídica, contábil e de compliance afirma utilizar ferramentas de IA não autorizadas por suas organizações. Entre aqueles que consideram lenta a adoção da tecnologia pelas empresas, esse percentual é ainda maior.
Esse comportamento revela um problema importante. Quando o escritório não oferece soluções adequadas, os próprios profissionais tendem a buscar alternativas disponíveis no mercado. Embora isso possa resolver uma necessidade imediata, também dificulta o controle sobre quais informações estão sendo compartilhadas, onde esses dados são armazenados e quais políticas de privacidade são aplicadas.
Além disso, a ausência de governança reduz a capacidade da organização de padronizar processos e garantir que todos utilizem ferramentas alinhadas às exigências legais e às boas práticas de segurança da informação.
Por esse motivo, a adoção da IA no escritório de advocacia deve estar acompanhada de políticas internas claras, treinamento das equipes e definição de ferramentas confiáveis para cada tipo de atividade.
Nem toda inteligência artificial oferece o mesmo nível de confiabilidade
Outro ponto destacado pelo estudo é que existe uma diferença significativa entre utilizar qualquer ferramenta de IA e utilizar uma solução desenvolvida para ambientes altamente regulados, como o jurídico.
Embora muitas plataformas consigam gerar textos rapidamente, isso não significa que as respostas sejam tecnicamente corretas, verificáveis ou adequadas para apoiar decisões jurídicas.
Na prática, um sistema de inteligência artificial precisa atender a requisitos muito mais rigorosos quando utilizado em escritórios de advocacia.
Entre os principais aspectos estão:
- Proteção de dados confidenciais;
- Rastreabilidade das informações utilizadas;
- Transparência na geração das respostas;
- Possibilidade de revisão e validação pelo profissional responsável;
- Confiabilidade das fontes utilizadas;
- Conformidade com normas de segurança e privacidade.
Esses fatores tornam-se essenciais porque decisões jurídicas exigem fundamentação consistente e responsabilidade técnica. Uma resposta incorreta, baseada em informações desatualizadas ou sem respaldo jurídico, pode comprometer estratégias processuais e gerar prejuízos para clientes.
Por essa razão, cresce o conceito de utilização responsável da inteligência artificial. Em vez de substituir o conhecimento jurídico, a tecnologia deve ampliar a capacidade de análise dos profissionais, oferecendo apoio para tarefas repetitivas e processamento de grandes volumes de informação.
Em outras palavras, quanto maior a responsabilidade envolvida na atividade, maior também deve ser o nível de confiança exigido da tecnologia utilizada.
Leia também > Segurança de dados: saiba como proteger informações jurídicas
Governança e revisão humana continuam sendo indispensáveis
Um dos equívocos mais comuns é imaginar que a IA seja capaz de operar de forma totalmente autônoma em atividades jurídicas.
Na realidade, os melhores resultados surgem quando existe colaboração entre tecnologia e profissionais especializados.
A IA pode identificar padrões, organizar documentos, localizar informações relevantes, resumir processos e acelerar pesquisas. Entretanto, interpretar o contexto jurídico, avaliar riscos, definir estratégias e tomar decisões continuam sendo atribuições do advogado.
É justamente essa combinação que permite aproveitar o potencial da tecnologia sem abrir mão da qualidade técnica.
Nesse sentido, a governança exerce um papel fundamental. Ela estabelece regras para utilização da IA, define responsabilidades, cria mecanismos de auditoria e garante que todo conteúdo produzido seja submetido à revisão humana antes de qualquer utilização.
Além disso, políticas internas bem estruturadas ajudam a responder perguntas importantes, como:
- Quais ferramentas podem ser utilizadas pela equipe;
- Quais tipos de informação podem ser compartilhados com sistemas de IA;
- Quais processos exigem validação obrigatória;
- Como registrar e documentar o uso da tecnologia;
- Como garantir conformidade com a LGPD e demais normas aplicáveis.
Ao estruturar essas diretrizes, o escritório reduz riscos operacionais e aumenta a confiança dos clientes na utilização da inteligência artificial.
Mais do que uma exigência regulatória, essa postura demonstra maturidade digital e compromisso com a qualidade dos serviços prestados.
A inteligência artificial gera mais valor quando trabalha ao lado do advogado, e não no lugar dele.
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Adoção da IA também influencia a atração e retenção de talentos
Os impactos da IA não se limitam à produtividade ou ao relacionamento com clientes. A forma como os escritórios adotam a tecnologia também interfere diretamente na experiência dos profissionais e na capacidade de atrair e reter talentos.
As novas gerações de advogados chegam ao mercado já familiarizadas com ferramentas digitais e esperam trabalhar em ambientes que valorizem inovação e eficiência. Por isso, organizações que investem em tecnologia tendem a oferecer rotinas menos operacionais e mais estratégicas, permitindo que os profissionais dediquem mais tempo à análise jurídica, ao atendimento consultivo e à construção de soluções para os clientes.
Em contrapartida, escritórios que mantêm processos excessivamente manuais podem enfrentar dificuldades para manter equipes engajadas. O próprio relatório da Thomson Reuters aponta que uma parcela significativa dos profissionais considera mudar de emprego caso perceba que sua organização não acompanha a evolução da inteligência artificial.
Essa tendência evidencia que a inteligência artificial no escritório de advocacia deixou de ser apenas uma ferramenta de produtividade. Ela também passou a representar um diferencial competitivo na gestão de pessoas, contribuindo para ambientes de trabalho mais eficientes, colaborativos e preparados para os desafios do futuro.
IA deixou de ser uma vantagem e passou a ser um requisito estratégico
A inteligência artificial está redefinindo a forma como os serviços jurídicos são prestados. O que antes era visto como uma inovação restrita a grandes organizações tornou-se uma realidade acessível a escritórios de diferentes portes, permitindo automatizar tarefas repetitivas, reduzir o tempo gasto em atividades operacionais e ampliar a capacidade analítica das equipes.
Entretanto, o verdadeiro diferencial competitivo não está apenas em adotar uma ferramenta de IA. O mercado exige que essa tecnologia seja utilizada de forma estruturada, segura e alinhada às necessidades dos clientes e às responsabilidades inerentes à advocacia.
Os dados apresentados pela Thomson Reuters evidenciam que a expectativa dos clientes mudou. Hoje, espera-se que escritórios utilizem a inteligência artificial para entregar mais agilidade, qualidade e eficiência, sem abrir mão da segurança das informações e da confiabilidade das análises jurídicas. Ao mesmo tempo, o crescimento do uso de ferramentas não autorizadas demonstra que a ausência de uma estratégia clara pode aumentar riscos relacionados à privacidade, à conformidade regulatória e à governança.
Nesse cenário, investir em IA no escritório de advocacia não significa substituir o advogado, mas potencializar sua atuação. A interpretação jurídica, a estratégia processual, a negociação e a tomada de decisões continuam sendo responsabilidades humanas.
Outro aspecto importante é que a transformação digital deixou de impactar apenas a operação. Organizações que investem em inovação demonstram estar preparadas para acompanhar a evolução do mercado jurídico e responder às novas demandas com mais eficiência.
Por isso, a inteligência artificial deve ser encarada como parte de uma estratégia de longo prazo. Mais do que acompanhar uma tendência tecnológica, trata-se de fortalecer a atuação jurídica, otimizar processos e criar um ambiente mais preparado para os desafios atuais e futuros da advocacia.
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O futuro da advocacia será construído pela combinação entre tecnologia e conhecimento jurídico
A transformação digital já faz parte da realidade do setor jurídico e continuará avançando nos próximos anos. Nesse contexto, a inteligência artificial tende a assumir um papel cada vez mais relevante na automação de tarefas operacionais e no apoio à análise de informações.
No entanto, os escritórios que alcançarão melhores resultados serão aqueles capazes de equilibrar inovação, governança e expertise jurídica. A tecnologia pode ampliar a produtividade e oferecer suporte à tomada de decisões, mas somente a atuação humana garante senso crítico, responsabilidade ética e interpretação adequada das particularidades de cada caso.
Assim, a IA no escritório de advocacia deve ser vista como uma aliada estratégica, capaz de fortalecer a qualidade dos serviços prestados, aumentar a eficiência operacional e preparar as organizações para um mercado cada vez mais competitivo.
A inteligência artificial já faz parte do presente da advocacia. A pergunta é: seu escritório está preparado para utilizá-la com segurança e estratégia?
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Perguntas frequentes sobre IA no escritório de advocacia
As melhores soluções são aquelas desenvolvidas para atender às necessidades específicas do setor jurídico. Além disso, é fundamental que contem com mecanismos de segurança e rastreabilidade das informações, garantindo conformidade com a legislação e maior confiabilidade nas atividades realizadas.
A inteligência artificial pode reduzir significativamente o tempo dedicado a atividades operacionais, como organização de documentos, pesquisa de jurisprudência, elaboração de minutas, classificação de processos e análise de informações.
Entre os principais benefícios estão a automação de tarefas repetitivas, maior rapidez na localização de informações, apoio à análise documental e redução de erros operacionais.